sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Crises Desenvolvimentais ao longo do Ciclo de Vida Familiar

A maioria das pessoas ao se referir a uma crise está a falar de uma crise imprevisível, ou seja, aquela que acomete de uma hora para outra, sem que a pessoa possa estar a esperar. Poderá estar a se referir a uma morte precoce, a um acidente inesperado, a uma crise financeira.  Geralmente essas crises recebem por parte da mídia muito destaque, até porque são inesperadas, logo se alojam nas primeiras páginas dos jornais, no entanto eu irei me ater neste texto a um tipo de crise que não recebe tanto ibope, mas que é inerente ao ciclo vital de todo o ser humano, as chamadas crises desenvolvimentais.

Slide Carolina Tavares - 13 de Janeiro 2012

Ao longo do ciclo de vida ocorrem transições de uma fase para outra e estas transições são demarcadas por crises, pois toda mudança acarreta uma crise. Podemos iniciar em qualquer ponto do ciclo, então proponho que a partida seja dada do ponto em que o jovem adulto sai de casa para morar sozinho, ou com amigos ou para estabelecer um relacionamento afetivo. Assumir a responsabilidade de uma casa e seu sustento gera uma crise que requer uma adaptação a este novo modo de vida. Na etapa anterior, por mais que a pessoa tivesse responsabilidades dentro da família na qual vivia, mas no momento em que a pessoa se banca sozinha em um espaço físico que é só seu, isto certamente demandará de si novos comportamentos e atitudes, que exigirão ajustes em sua postura até então. Caso venha estabelecer um relacionamento a dois onde resolvam morar juntos, o próprio relacionamento passará por uma crise. É comum as pessoas acharem que o início de vida a dois é uma lua de mel, engano redondo de quem pensa assim. Juntou as escovas de dentes, ai que começa os problemas. Essa fase de ajustamento é dificílima na relação. É fácil namorar, passar o final de semana juntos, fazer aquela viagem romanceada onde tudo são flores, e o mundo parece perfeito, mas viver o dia-a-dia dos problemas, o estar junto (como é mesmo que se diz lá...) na tristeza e na alegria, na riqueza e na pobreza... ah.... essas palavras já denunciam a crise, ou seja, no tempo bom e no tempo mal, porque afinal nem tudo são flores. Neste momento eu gosto de pensar naquelas coisas, que servem de metáfora, e que não são tão bonitinhas e cheirosinhas, mas que estão lá, como o mau hálito, os gases e etc... que são inerentes ao ser humano, o lado sombra de cada um. 

Pois bem, o ciclo avança e os casais têm filhos, ou adotam, enfim, a chegada de filhos, seja lá por que via forem (os seus e os nossos) faz uma grande mexida no sistema. Filhos não vêm com manual, dão uma canseira, tiram a noite de sono, modificam a rotina dos adultos que antes estavam acostumados a ter liberdade total para fazer o que quiser, na hora que bem quisesse... éhh..., foi-se. Agora precisam amoldar-se a nova responsabilidade de educar uma criança. Começa pela gravidez e preparativos, o quarto do bebê e o enxoval. Já parou para pensar em quanta coisa um bebezinho minúsculo demanda? Sem dúvida esta etapa está recheada de crises, a criança começa falar mexe com sistema, a partir daí tem-se mais um eu a dizer, ¨eu quero, eu não quero¨. A criança começa andar, altera tudo dentro de casa, os objetos cortantes e perigosos mudam rapidamente de lugar, põe-se grade nas janelas. O filho vai para escola, abre-se o universo de pessoas a interferir na educação, entra na jogada a professora e o diálogo da família com um novo sistema, o escolar, é quando inicia uma etapa que demorará muitos anos no processo desenvolvimental da criança, e que demandará da família dedicação emocional e de tempo, bem como muitos gastos financeiros. Amigos de filhos a freqüentar a casa e fora de casa, um capítulo extenso sem dúvida. Filho no vestibular, ou para ingressar na universidade, a família toda a fazer a prova de admissão, afinal a família é levada a se envolver constantemente em cada etapa, o que sempre irá alterar e mexer com o sistema. E o sistema avança em meio as suas crises, e a família possui uma força que se chama homeostase, ou seja, uma força que a leva a procurar a se adaptar da melhor forma, e assim a gerenciar as mudanças que sobrevêm ao sistema. Muitas vezes a família não suporta essas mudanças e o casal se recente, o que pode gerar um divórcio, que é uma das piores crises vividas por uma família. São muitas engrenagens que precisam caminhar juntas, as engrenagens dos subsistemas, o subsistema conjugal está dentro do sistema familiar e se o casal não se cuidar, ele dança.

Depois que os filhos crescem, eles precisam ser lançados, mas o que vem acontecendo é que os filhos vão ficando na casa dos pais, de forma que cada vez mais custam a sair. A este movimento se chama de geração canguru, onde os filhos são mantidos na barriga da família, como acontece com os marsupiais. Atualmente é mais freqüente o movimento que levam os filhos para fora de casa, mas que depois assiste ao seu retorno, que é conhecido como geração bumerangue. Neste movimento os filhos saem da casa dos pais, moram sozinhos, casam-se, expatriam, e depois voltam para casa dos pais quando terminam o curso que estavam a fazer no exterior, quando divorciam, ou quando falta grana para bancar o aluguel, e isto tem provocado inúmeras crises no sistema familiar.

Há outras crises desenvolvimentais como aposentadoria, ninho vazio (quando todos os filhos saem de casa e aquele casal se vê sozinho de novo), e quando há o divórcio, tem-se o novo casamento do pai e da mãe, a inserção dessas novas pessoas, e as questões relacionais implicadas neste processo. A família em estágio tardio de vida vivencia outras preocupações como o envelhecimento dos pais, o cuidado que estes requerem ante a saúde e a qualidade de vida dos pais idosos.  

Com este relato o que pretendo é chamar a atenção para o fato de que no dia a dia do indivíduo inserido no sistema familiar e no seu próprio ciclo de vida, lida com inúmeras crises e diante delas precisará fazer adaptações frente às mudanças ocasionadas pelas mesmas ao longo do ciclo. A crise é inerente ao próprio ciclo de vida, é como o movimento das ondas que se propagam quando uma pedra cai dentro da água, é o impacto mínimo e máximo vivido na mudança, e a mudança sempre irá existir, pois estamos em constante movimento.  



8 aroma @ sabor:

  1. É verdade. Hoje em dia os filhos acabam por ser dependentes dos pais durante muito mais tempo que anteriormente e isso não é bom.
    Vou fixar essa da "geração canguru" pois é muito pertinente mas por aqui ainda ninguém falou nesse termo. É que é mesmo uma geração que não quer sair da bolsa do marsupial. hei-de usar essa expressão em breve :)
    bjs

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  2. Muito bom , tivesses postado isto antes do meu trabalho de sociologia da Família.

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  3. Martini,

    Fiques a vontade, é uma expressão bem usada por aqui. No Brasil temos muito da geração canguru, mas o que está em alta agora, acontecendo nas famílias é a geração bumerangue. Verei os meus slides sobre o tema e pretendo te enviar ao menos dois deles.

    Há um filme que fala sobre o assunto, ¨Armações do Amor.¨

    Beijos

    Beijos

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  4. Miss Muderr,

    O que precisar na área de família pode contar comigo.

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  5. Carolina, com o google crome que já instalei, já consigo fazer comentários ;)


    Concordo com tudo o que aqui deixou escrito, a crise atinge um vasto leque de situações. Podemos invocar crises do foro económico, social, pessoal, ambiental, mundial.. sei lá...
    O mundo e as relações levam-nos por vezes a um esgotamento variado que nos empurram principalmente para a desestruturação de famílias, afectos/relações.

    Beijos

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  6. Que bom Mz que deu resultado com relação aos comentários.

    Quanto a crise, penso que são dois tipos de crise deferentes. Falo das desenvolvimentais, relativas ao ciclo de vida familiar.

    Beijos

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  7. A nossa sociedade não está preparada para tanta crise, pois a mídia junto com a nossa cultura, estimula o cidadão á ter uma vida de facilidades. Então isso faz com que o cidadão não queira viver com responsabilidades...
    Mas uma coisa posso dizer: que por trás de uma crise sempre tem uma grande conquista...
    E a palavra de Deus nos dá entendimento para viver esses ciclos.

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    1. É verdade, fazem parte do marketing as facilidades e a felicidade encapsulada.
      Lembraste do ideograma chinês para crise, de risco e oportunidade, que podererá resultar em superação e conquistas, ou não, depende de cada um.
      Acredito que a fé possa ajudar, mas a pessoa precisa lutar para obter mudança e para se superar.

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